Quinta-feira, Junho 11, 2009

O sabor da indiferença


Nos últimos tempos, tenho andado tão embrenhada nas minhas trapilhices que, infelizmente, me tenho afastado, não de forma voluntária ou premeditada, deste pechisbeque, onde, de quando em vez, deposito alguns pensamentos e reflexões que gosto de partilhar.
Desta vez, foram as eleições europeias de domingo último que me trouxeram de volta a esta plataforma virtual, por acreditar que há algumas realidades importantes (diria mesmo vitais, sem qualquer ironia do termo escolhido!) que importa discutir.
Não deixa de ser hilariante que em dia de eleições, todos os partidos, ou quase todos, clamem vitória e nunca assumam derrotas, por vezes inequívocas e que saltam à vista de todos. Discursos inflamados e galvanizadores, plateias amestradas que batem palminhas em sincronia e que proferem ferozes gritos de vitória. Independentemente dos processos eleitorais, as manifestações de júbilo e de auto-promoção são, inevitavelmente, sempre as mesmas, o que leva a um enorme cansaço por parte dos cidadãos que - ainda - acreditam que o seu voto, o seu manifesto poderão fazer a diferença.

Um pouco por toda a Europa, e Portugal não foi excepção, a grande vitoriosa foi mesmo a abstenção e o completo divórcio entre os cidadãos e o Parlamento Europeu ou, em última instância, a Europa, essa entidade ainda demasiado longínqua e etérea que, lamentavelmente,ainda não mobiliza as grandes massas de eleitores.
É certo que em tempos de crise económica, os povos se centram mais no seu próprio umbigo e nas questões internas, afastando-se de uma lógica mais global, demasiado distante para parecer sequer consistente.
No entanto, os índices de abstenção tendem irremediavelmente a aumentar, cabendo a culpa unica e exclusivamente às classes governantes que orientam o debate para questiúnculas menores e episódios que poderiam ser cómicos se não fossem tão preocupantes, utilizando o poder, sempre inebriante, para satisfazer interesses pessoais e desvirtuando por completo a essência da política, tal como Aristóteles a entendia.
Nestas eleições, em concreto, assistiu-se à vitória da abstenção e ao reforço da oposição, penalizando seriamente os dois partidos que habitualmente alternam entre si as cadeiras do poder. Com esta consolidação da oposição, os eleitores que, tal como eu, decidiram votar, quiseram expressar uma profunda insatisfação com o estado de coisas actual e com a quase indiferenciação entre um ou outro partido que poderão assumir os destinos do país, na certeza de que o poder acaba sempre por corromper os espíritos moralmente mais elevados.
Haverá excepções, certamente, que teimam, contudo, em não se vislumbrar...

"O objecto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade." Aristóteles

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Chocolate high

Acho esta música absolutamente deliciosa!
Faz,sem dúvida, jus ao título!

Domingo, Abril 19, 2009

A viagem do elefante


O protagonista chama-se Salomão e vai embarcar numa longa e, certamente, sinuosa viagem, repleta de peripécias, entre Lisboa e Viena.
Nela se desenha o retrato de um Portugal seiscentista que em nada diverge do actual, perpassado pela fina lupa da ironia e do humor corrosivo de José Saramago.
O monarca D. João III ofereceu Salomão como presente ao arquiduque Maximiliano de Áustria, decisão que marcará indelevelmente o destino deste paquiderme que parecia votado a ser objecto exótico, alvo dos olhares curiosos da corte real e do povo de Lisboa, embrenhado em sujidade e melancolia.
Na senda de Salomão, o elefante, e de Subhro, o seu tratador indiano e inseparável compagnon de route, percorremos os trilhos da complexa identidade lusa, da aventura europeia, e do abismo civilizacional que sempre nos distanciou dessa mesma Europa desenvolvida.
Ainda agora embarquei nesta viagem e mal posso esperar por vislumbrar o destino final.
Deixo aqui um pedaço delicioso da prosa de Saramago:

Este homem não pode ir para viena em semelhante figura, coberto de andrajos, ordeno que lhe façam dois fatos, um para o trabalho, para quando tiver que andar em cima do elefante, e outro de representação social para não fazer má figura na corte austríaca, sem luxo, mas digno do país que o manda lá, Assim se fará, meu senhor, E, a propósito, como se chama ele. Despachou-se um pajem a sabê-lo, e a resposta, transmitida pelo secretário, deu mais ou menos o seguinte, Subhro. Subro, repetiu o rei, que diabo de nome é esse, Com agá, meu Senhor, pelo menos foi o que ele disse, aclarou o secretário, Devíamos ter-lhe chamado Joaquim quando chegou a Portugal, resmungou o rei.

Sexta-feira, Abril 10, 2009

Une rencontre


...com Milan Kundera. Já foi (finalmente!) publicada a versão francesa da nova obra de Milan Kundera, Une rencontre, que reúne ensaios dispersos deste autor checo. Milan Kundera é um escritor maior da cultura ocidental, cujas obras arrebatadores têm o poder imenso de marcar a existência de quem as lê. Procuro freneticamente, nos escaparates das livrarias,novos lançamentos deste autor que para mim será sempre absolutamente icónico. Mergulhando na poesia da sua escrita, tomamos consciência das verdades que iluminam a essência humana. Para quando o Nobel?

A ASA ainda não anunciou a data de publicação da versão portuguesa.

Sábado, Março 21, 2009

Pelo direito à diferença


O realizador americano Gus Van Sant já nos habituara a filmes de grande fôlego, como por exemplo "Elephant", "Paranoid Park" ou "Good Will Hunting", pontuados por preocupações manifestamente sociais e políticas que revolvem as entranhas e que, na senda do melhor cinema de autor, levam o público a colocar uma série de questões pertinentes.
O filme "Milk" não é, pois, excepção, neste contexto da obra do realizador. Construído como um documentário, e, consequentemente, como uma peça importante para o entendimento da história da luta pelos direitos civis por parte da comunidade homossexual norte-americana, este filme acompanha o percurso de Harvey Milk, o primeiro homossexual a ser eleito para um cargo público nos E.U.A.
A luta incansável de Milk desenrolou-se, em primeiro lugar, num bairro de S. Francisco para logo se alastrar a todo o país que começou a despertar para a urgência de um tratamento igualitário em relação à comunidade homossexual, fortemente ostracizada por uma sociedade puritana e conservadora.
É interessante verificar que, em 1978 (o ano em que eu nasci), a luta acérrima pelos direitos civis por parte das minorias já fervilhava nos Estados Unidos, questão que só agora se começa a discutir com consistência em Portugal!...
Harvey Milk é o símbolo da determinação férrea de um cidadão que se via, acima de tudo, como um activista (e não como um político), reclamando somente o direito a um tratamento igualitário, no plano dos direitos civis. O seu destino foi trágico (como, infelizmente, o de todos os homens à frente do seu tempo), mas o seu contributo tremendamente importante lançou as bases para a construção de uma sociedade mais aberta, mais plural que abraça todos os seus cidadãos, por igual, independentemente das tendências sexuais de cada um.
Uma nota para a representação soberba de Sean Penn que encontrou o registo certo para esta interpretação, sem nunca incorrer nas imagens esteriotipadas que se associam à comunidade gay. O Óscar para Melhor Actor foi, sem sombra de dúvida, merecido. Sean Penn não pára de supreender, demonstrando uma flexibilidade tremenda ao encarnar personagens completamente díspares, como, por exemplo, nos filmes "I am Sam", "Mystic River" ou "Dead Men Walking". Dele só se espera a perfeição, plenamente conseguida neste marcante Harvey Milk.

Domingo, Março 08, 2009

Nostalgia

Não resisti e comprei hoje estas All Star lindíssimas que são um autêntico regresso ao passado! Aquelas que tinha nos meus tempos de "teenager" eram azul cian. O tempo passa, mas a obsessão com a cor mantém-se! Mais do que o carácter cícliclo da moda, o doce sabor da nostalgia que, a cada passo, faz esboçar um sorriso inevitável...

Domingo, Fevereiro 22, 2009

outros carnavais...


E hoje é dia de Óscares! Vivo sempre este dia, ou por outra, esta madrugada com muita intensidade, pois o espectáculo da atribuição dos Óscares é invariavelmente grandioso e, sobretudo, inesperado.
Na época pré-óscares surgem quase sempre imensos filmes de qualidade e a escolha torna-se particularmente árdua.
Daqueles filmes que este ano estão na corrida, ainda "só" vi o fenomenal "Slumdog Millionaire", realizado pelo britânico Danny Boyle que realizou, por exemplo, o icónico "Trainspotting" ou "A Praia".
"Slumdog Millionaire" enquadra-se muito naquele tipo de filme guiado por preocupações sociais e que denuncia com eloquência e poesia o rumo alucinado que o mundo por vezes toma. Filmado em Bombaim (com uma fotografia absolutamente notável), este filme vai ao âmago da dura realidade social indiana, dominada pelas gritantes discrepâncias entre os ricos e os desesperadamente pobres, os chamados "slumdogs" que aprendem desde crianças a (sobre)viver e a encontrar as mais diversas defesas para fazer face a uma realidade muito cruel e pouco poética.
No entanto, neste submundo de pobreza extrema e de miséria total, há ainda lugar para a criação de elos inabaláveis entre os seres humanos e para a poesia que só o Amor genuíno liberta.
Um concurso que se tornou um ícone no mundo globalizado - "Quem quer ser milionário" - num país dual como a Índia adquire uma importância tremenda. Ele pode ser o sinónimo de libertação e de passaporte para uma vida materialmente estável, com todas as condições de que dispomos no Ocidente e que tomamos como dado adquirido, sem sequer nos lembrarmos que há pontos desta aldeia global em que a escassez é absoluta e o desespero imenso.
No filme, joga-se muito com o Tempo que avança e recua permanentemente e, no meio destes avanços e recuos, vamos assistindo ao concurso e à forma genial como um "slumdog", proveninente dos bairros mais miseráveis de Bombaim (como as favelas), vai respondendo às perguntas que lhe são colocadas.
Porém, as respostas, ainda que certeiras, escondem sempre laivos de tragédia e esse permanente levantar do véu é verdadeiramente genial neste filme de Danny Boyle. As respostas são alcançadas à custa de um sofrimento inimaginável e não pelos trilhos convencionais da aprendizagem. Porque neste mundo de pobreza atroz, a realidade é demasiado penosa e as suas implicações devastadoras.
Uma viagem comovente ao coração da Índia e da essência humana...
Veja aqui o trailer: